Esse video me lembrou uma palestra que assisti do Caco Barcellos no ano passado na Feira Pan-Amazonica do Livro. Era sobre suas vivencias com a terceira geração do tráfico no Rio. Era para fazer seu livro. Certo dia um dos traficantes chegou até ele e disse:
- Otário( ele era chamado assim), diz pra mim? Porque quem mora no asfalto tem duas mães e eu não tenho nenhuma?!
Minha mãe já foi diarista e amarga até hoje a desilusão de um grande amor. Meu pai não foi um bom pai, nem um bom companheiro. Fiquei pensando e tentando achar uma relação entre esses fatos; a diarista do video, o traficante sem mãe, o que penso de familia e a memória do que seria felicidade.
Eu posso entender o disfarce do tempo. Aprender e viver o seu segredo. Seu mistério oculto. Posso ser diarista de um sorriso, de um amor verdadeiro, posso ter a fé que movimenta a vida. Entre todos os personagens da lista, me pareço com minha mãe, me sinto como uma diarista.
Nos ultimos anos, mesmo errando em alguns pontos ( não vou me chicotear), trabalho todos os dias para manter vivo a idéia de uma familia, ainda que a distância seja fato determinante na minha condição solitária de compreender e viver familia.
Sem lamento, sem massagem, vivo limpando meus olhos, vivo comigo mesmo, vivo querendo evoluir pra se chegar a algum lugar em que não esteja sozinho. Estar comigo mesmo ainda é a melhor forma que encontrei de ficar vivo. O risco é alto, tanto quanto o meu corre do dia a dia.
No ultimo mês vivo o duplo sentido da poesia. Uma poesia que cheira patcholi nas batalhas da semana, e um chorume nos dias de domingo. A saudade me leva ao fundo de luzes solitárias. São as luzes do meu toca-disco naquele quarto escuro.
E quem se importa??
Segunda-Feira será mais um dia de diarista e devo precisar limpar a casa do seu mau humor, da sua falta de amor, ou do simples devaneio da sua bebedeira. A roupa suja da saudade e a nudez das nossas duvidas. Devo limpar a sua e consequente a minha, já que compartilho da dança da vida com os meus e com os seus. Por um segundo em meio a tudo isso, eu penso; Serão os nossos?
E se o traficante do morro não tem mãe, e o provável branco do asfalto tem duas. E se a diarista sente saudade do interior. E se o interior que ela diz é espelho do seu próprio interior. E se a saudade é fato vencido na terra da vaidade. E se o tempo, esse maldito deus é cúmplice da sua falta de amor em pequenos gestos que aguardo todos os dias para me satisfazer. E se tudo aqui não passa apenas de palavras e nada vai fazer sentido se eu apenas me calar e não me deixar enganar. O caminho é frio e solitário, eu sei, e o que preciso é não ter amor por alguém, mas viver pelo “nóiz”. Pois se hoje eu decido ainda te amar é porque sou fraco e não consigo vencer esse deus. Essa esperança que tenho não é sua, nem do traficante, nem do diarista. Essa esperança que tenho é só poesia. A vida de verdade está lá fora e tudo que preciso para vive-la não está em você, nem nesse vídeo, nem nessa saudade.
O que tenho que admitir é que não sei por onde ir e preciso tatear esse mistério e se por algum acaso eu estiver errado, tudo apenas não passou de um desabafo e uma tristeza profunda que devo curar numa próxima música, numa pŕóxima cama ou numa próxima mentira.
Obs: O vídeo me fez chorar!

Poxa, o texto consegue ser profundo e superficial ao mesmo tempo, vejo muitas dúvidas, respostas e conflitos… o que me faz refletir e tb me emocionar. Muita energia pra vc.